Os atores mexicanos Alfonso Herrera e Emiliano Zurita são protagonistas do filme ‘El baile de los 41’, baseado em acontecimentos reais

Por: Alberto Najar – BBC News Mundo, Cidade do México

Há mais de 100 anos, alguns mexicanos associam o número 41 à homossexualidade masculina

A origem desse comportamento remete a um baile que contou com a presença de 42 homens na noite de 17 de novembro de 1901, no centro da Cidade do México.

Metade dos convidados estava usando roupa de mulher — e grande parte era abastada ou integrante da elite social da época.

A festa foi interrompida pela polícia, que prendeu quase todo mundo. Na verdade, apenas um dos participantes conseguiu escapar — os outros 41 foram detidos.

O caso foi um dos maiores escândalos sociais da época que ficou conhecida como ‘Porfiriato’, quando o país era governado pelo presidente Porfirio Díaz.

Na verdade, reza a lenda que quem conseguiu escapar naquela noite foi o genro do presidente, Ignacio de la Torre y Mier.

Em novembro deste ano, a história chegou aos cinemas, retratada no filme mexicano El baile de los 41, dirigido por David Pablos, com Alfonso Herrera no papel do marido da filha do presidente mexicano.

Após o escândalo, o número 41 passou a ser usado para fazer referência a homossexuais no México
Legenda da foto,Após o escândalo, o número 41 passou a ser usado para fazer referência a homossexuais no México

Por mais de um século, não se conhecia a identidade dos demais presos.

Até que o advogado Juan Carlos Harris, que se define como um “historiador frustrado”, encontrou os nomes de sete deles nos arquivos do Supremo Tribunal de Justiça (SCJN, na sigla em espanhol).

Harris descobriu ainda uma série de abusos e violações contra os presos que, mais de um século depois, começaram a vir à tona.

Prisão ilegal

O escândalo de 1901 é conhecido como El baile de los 41 maricones (“O baile das 41 maricas”, em tradução livre). A festa aconteceu na rua de La Paz, onde hoje é o Centro Histórico da capital, próximo ao Palácio Nacional, residência do presidente.

Segundo os jornais da época — única fonte documental do caso —, um policial ouviu um barulho em uma das casas às 3h da manhã, e quando foi averiguar, se deparou com os casais.

Reza a lenda que o genro do então presidente Porfirio Díaz participou do polêmico baile
Legenda da foto,Reza a lenda que o genro do então presidente Porfirio Díaz participou do polêmico baile

Ele pediu então reforços para detê-los, algo que segundo Harris, era ilegal.

“Não havia motivo para prendê-los”, diz o advogado à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC. “Legalmente, a homossexualidade como tal nunca foi proibida no México.”

Mas quase todos os participantes da festa foram presos, exceto o genro de Porfirio Díaz, segundo a crença popular, cujo nome teria sido retirado da lista para evitar um escândalo político.

Em seguida, foram obrigados a varrer as ruas da capital mexicana com as roupas que tinham usado na festa, o que também era considerado ilegal, já que nenhuma lei previa esse tipo de punição.

Outro abuso foi o escárnio nos jornais, que chegaram a publicar uma música para zombar dos presos, acompanhada por gravuras de José Guadalupe Posada.

Cena do filme 'El baile de los 41'
Legenda da foto,Alfonso Herrera (à direita) interpreta o marido de Amada Díaz, filha do presidente Porfirio Díaz, no filme ‘El baile de los 41’

O artista é um dos cartunistas mais importantes do México, autor do famoso personagem ‘La Catrina’ que elegantemente representa a morte.

Com esse escândalo, nasceu a ‘Lenda dos 41’. Mas a história não termina por aqui.

Destino trágico

Nas horas seguintes à operação policial, vários presos foram libertados.

Juan Carlos Harris acredita que eles pagaram propina à polícia e às autoridades da capital para serem soltos.

Foi o caso dos mais ricos ou daqueles que pertenciam a famílias conhecidas no meio social do Porfiriato.

Mãos entrelaçadas com a bandeira mexicana
Legenda da foto,Alguns mexicanos ainda associam o número 41 à homossexualidade

O restante, sem tantos recursos, foi incorporado à força no Exército.

Vários foram enviados para lutar na Guerra das Castas, que estava sendo travada em Yucatán, no sudeste do país.

“Foi uma espécie de banimento, e a única forma que eles encontram de fazer isso foi colocando eles no Exército”, afirma o advogado.

O destino final deles não é conhecido, mas Harris e alguns historiadores que pesquisam o tema acreditam que eles tenham morrido em batalhas.

Embora não tenha sido documentado, é muito provável que também tenham sofrido abusos dentro do Exército, uma vez que o motivo de seu recrutamento nunca foi ocultado dos demais soldados, acrescenta o advogado.

“Eles foram presos, sofreram um escárnio muito forte”, explica. “É uma questão muito grave, e não apenas o disparate que certos grupos sociais soltam”.

Harris conseguiu identificar nos arquivos do Supremo os nomes dos presos que haviam entrado com uma medida cautelar contra o alistamento forçado no Exército. São eles: Pascual Barrón, Felipe Martínez, Joaquín Moreno, Alejandro Pérez, Raúl Sevilla, Juan B. Sandoval e Jesús Solórzano.

Mais de um século depois

Esta gravura do artista José Guadalupe Posada foi publicada nos jornais da época
Legenda da foto,Esta gravura do artista José Guadalupe Posada foi publicada nos jornais da época

Por que alguns mexicanos associam o número 41 à homossexualidade?

Um dos motivos é o escândalo causado pelo baile e o número de presos, explicam os historiadores.

Mas o status social de alguns participantes da festa também teve influência, de acordo com Harris. O escárnio que eclodiu foi uma espécie de vingança social.

Uma reação de incômodo em relação ao que na época era conhecido como “a decadência dos lagartixos”, com eram chamadas as pessoas abastadas do Porfiriato.

E revela também a profunda homofobia que ainda hoje, mais de um século após o baile, existe em algumas partes do país.

Por isso é importante identificar quem foi preso, diz o advogado, mas sobretudo lembrar qual foi seu destino.

“Há tentativas muito sérias, muito graves de retrocesso, inclusive buscando a supressão de direitos civis”, explica.

“Talvez não entendamos o que isso significa. É algo muito grave.”

Compartilhar